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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Fazemos coro ao editorial do Globo.

Longe de apoiar o conglomerado jornalístico de extrema direita que durante tanto tempo enganou e manipulou o povo brasileiro, apoiou a ditadura militar, foi contra diversos direitos dos cidadãos brasileiros, mas concordo plenamente com o editorial (leia aqui)do jornal O Globo deste domingo.

Não se pode achar justificáveis os atos dos Black Blocks, como o que levou a morte o cinegrafista da TV bandeirantes, Santiago Andrade, assim como não podemos deixar de criticar os atos dos policiais mal preparados do nosso país, como o que deixaram cego de um olho o fotógrafo Sérgio Silva (leia aqui) ou pior, dos maus (com u mesmo) policiais que mutilaram  o jovem Fabrício Proteus em um protesto em SP ( Fabrício teve um dos testículos removido por causa dos ferimentos a bala causados pelos policiais - leia aqui).

Concordo que o terrível assassinato de Santiago era uma tragédia anunciada e infelizmente não serviu de exemplo. Ontem (22/02) houve novo protesto em SP contra os gastos da Copa e mais uma vez o que se viu foram os Black Blocks em atos de barbárie e policiais agindo com truculência excessiva numa tentativa de conter as manifestações, o que é um direito de todos nós.

Crédito: Brasil 247

O que todos os Black Blocks parecem não entender e que grade parte da culpa de não termos saúde, educação, distribuição de renda e termos tanta corrupção, nossos governantes utilizarem mal o dinheiro público é NOSSA! Mesmo os mais politizados não se dão ao trabalho de ir as seções da Câmara de Vereadores da sua cidade, não nos preocupamos em fiscalizar os que nossos vereadores estão fazendo em prol da nossa própria comunidade quando sequer lembramos em quem votamos na última eleição. Os cidadãos do nosso bairro não se unem para irem até a porta da prefeitura reivindicar que as ruas da cidade sejam limpas e que seja feito saneamento básico.

Crédito: Agência Brasil

E o problema maior não é falta de dinheiro, mas a má utilização dele pelas esferas municipais e estaduais. Graças a política econômica dos governos Lula e Dilma durante os 10 anos que o PT está a frente do país, temos reservas de dinheiro suficiente para resolver os problemas básicos das nossas cidades. No entanto a corrupção ao nível municipal e estadual é alarmante. Pra se ter uma ideia, segundo estudo do sítio Transparência Brasil (baixe aqui), o custo médio anual para que as três esferas de poder (Federal, estadual e municipal) funcionem custa para moradores das capitais R$115,27 ao ano. Este valor deveria ser muito menor não fosse os desvios descarados de dinheiro.

Muito mais importante que as manifestações violentas será a grande manifestação que teremos que fazer em Outubro deste ano e em 2016, onde o brasileiro terá, de verdade, a chance de mostrar que está insatisfeito com a forma como as coisas estão sendo conduzidas. Neste tempo sim, o eleitor deverá mostrar que adquiriu nova consciência política não mais votando nos "coronéis" legislativos, deputados estaduais e federais que estão a anos recebendo as custas do altíssimo imposto pago por nós e que não produzem em prol da população que o elegeu.

Fica a pergunta: O que eu estou fazendo para contribuir com o fim do mau uso de dinheiro público na minha Cidade/Estado/País?

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A tragédia fatal era mera questão de tempo.

Publicado no sitio: El Pais Brasil

Se a reflexão sobre o que acontece nas nossas ruas sempre foi urgente, hoje é imperativa.

Santiago Ilídio Andrade morreu. Eis o fato. Atroz, incontestável.
Como pesquisadores, seguimos de perto as manifestações desde que elas começaram. Rapidamente o confronto foi ocupando as ruas, numa dinâmica crescente, com o beneplácito de um governo omisso, ausente na sua negligência, escondido atrás do aparato policial.
Policiais, manifestantes e jornalistas feridos, formam parte do cotidiano dos protestos. A cada dia agressões piores, numa dialética de violência que aumenta exponencialmente. Fabrício Proteus Chaves foi baleado em São Paulo, onde mais uma viatura da polícia foi virada e um Fusca incendiado como decorrência do protesto. A tragédia fatal era mera questão de tempo.
A lógica do Black Bloc era a violência simbólica, a lógica da polícia era a proteção, a lógica do governo era responder aos desafios sociais com cuidado e compromisso, a lógica da sociedade era rejeitar a barbárie, construir, não aniquilar. Todos erramos, violando nossas lógicas.
Se a reflexão sobre o que acontece nas nossas ruas sempre foi urgente, hoje é imperativa. A necessidade de autocrítica é categórica. Os culpados que sejam punidos, aliás, que todos os culpados por todos os feridos sejam punidos.
Os ativistas deveriam pensar sobre suas estratégias e se exigir a si mesmos o comportamento responsável que exigem às policias. Polícias que, a sua vez, devem aprender a lidar com esta realidade. Governo que deve deixar farsas e indignidades de lado. Não só eles. Todos. Estas semanas vivemos linchamentos, tiranias múltiplas contra homossexuais, chacinas. É evidente que o que ocorre nos protestos é um sintoma claro de uma sociedade que instaurou a violência como fundamento de suas relações.
Podemos continuar insistindo no ataque, lançando acusações mútuas e julgamentos hostis ou podemos exigir que sejam esclarecidos com agilidade e honradez os fatos que envolvem todos os casos de agressão nas manifestações. Mas, é preciso ir além. É preciso mudar a lógica de uma sociedade que encontra fundamentalmente na violência a sua forma de expressão. Questionemo-nos sobre que sociedade é a nossa, imersa na sua própria barbarização.
Manifestantes, policiais, jornalistas, peças de um mesmo sistema que se perpetua. Enquanto não buscamos reverter a doença, apenas teremos de conviver com seus sintomas nefastos.
Aprenderemos todos de nossos erros ou só cabe esperar a próxima tragédia?

Esther Solano Gallego, professora de Relações Internacionais da Unifesp e Rafael Alcadipani, professor de Estudos Organizacionais da FGV-EASP. Ambos conduzem uma pesquisa de campo sobre o Black Block de São Paulo

domingo, 8 de dezembro de 2013

Quem é Rafael Braga Vieira?

Por Ana Aranha | Reportagem 3 por 4 – qui, 5 de dez de 2013

A notícia circulou ontem por todos os portais: morador de rua preso durante protestos no Rio de Janeiro foi condenado a cinco anos e dez meses em regime fechado. Rafael Braga Vieira foi preso no dia 20 de junho ao sair de uma loja abandonada no centro do Rio com uma garrafa de água sanitária, um Pinho Sol e uma vassoura.
Ele tem 26 anos, é morador de rua, negro, catador de latinhas e foi condenado por roubo duas vezes, penas que já cumpriu. Isso é tudo o que sabemos sobre Rafael.
Até agora não vimos uma foto ou entrevista com ele, com seus amigos, ou qualquer pessoa que possa nos trazer mais informações sobre Rafael. O que ele tem a dizer sobre a sua prisão? Ele estava na manifestação? Onde ele ia como o material de limpeza? Como foi tratado nos cinco meses que ficou esperando o julgamento no complexo presidiário de Japerí?
O que sabemos são fragmentos de registros oficiais. Segundo matéria da revista Carta Capital, ele disse em depoimento que foi preso quando saia da loja abandonada onde morava há um mês e onde pegara os dois frascos de limpeza. No laudo do esquadrão antibomba, a Polícia Civil apontou que os produtos tinham “ínfima possibilidade de funcionar como coquetel molotov”. Quando o caso chegou ao Ministério Público, as garrafas foram descritas pelo promotor responsável pela acusação como “material incendiário”. Até que o juiz Guilherem Schilling Pollo Duarte determinou que “uma das garrafas tinha mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov” e condenou Rafael a quase seis anos de prisão.
O seu caso está com a Defensoria Pública do Rio, que já declarou que vai recorrer. Ele teve o apoio do grupo Anonymus, que lançou campanha nas redes sociais pela sua libertação. Não precisa ser especialista em direito para perceber que o caso está cheio de furos e cheira a bode expiatório para assustar futuras manifestações. Os ingredientes da sua condenação deveriam ser explosivos no contexto de protestos, repressão policial e perseguição a manifestantes que se instalou no Brasil desde junho. Mas quem vai sair em defesa de Rafael? Mobilização em redes sociais é uma resposta à altura do que esse caso pode representar? Por que não vemos reportagens mais profundas sobre o caso? Como ainda não há um advogado, ou uma equipe de advogados, trabalhando no caso sem cobrar?
Rafael estava esquecido há quatro meses na prisão, ainda sem julgamento, quando o primeiro repórter descobriu sua história. Foi Piero Locatelli, ele mesmo preso sob acusação parecida durante a cobertura dos protestos em São Paulo: porte de garrafas suspeitas. No caso de Piero, vinagre. Como repórter da revista Carta Capital, ele teve o apoio de advogado e dos próprios veículos de comunicação, que circularam rapidamente a informação sobre a arbitrariedade de sua prisão. Mas, como o próprio repórter escreveu no seu relato sobre a prisão, ele não era o único e muitos outros ficaram na delegacia depois que ele foi liberado.
Desde junho, os abusos e ilegalidades cometidos pela Polícia Militar durante os protestos foram repetidamente flagrados, registrados e publicados. Tanto que parte da população parece ter naturalizado a “essência violenta” da instituição (a outra parte, que mora nas periferias, já convivia com essa face da PM há muito tempo).
A repressão violenta a manifestações deveria ser, em si, algo inaceitável em um país democrático, mas o caso de Rafael tem um elemento ainda mais surreal: nós sequer sabemos se ele fazia parte do protesto. Marcos Romão, no site Mamapres, lembrou das similaridades com o personagem de Charles Chaplin em “Tempos Modernos”. Desempregado e vagando pelas ruas depois de sair da prisão, Carlitos pega uma bandeira caída no chão. No mesmo minuto, uma manifestação toma a rua e ele é preso pela polícia, considerado líder do protesto.
Carlitos representava as incoerências e injustiças da sociedade de 1936. Rafael é a prova de que as coisas não mudaram tanto desde então. A nossa reação ao seu caso será a medida de quanto o Brasil pode mudar nos próximos anos.

Do sitio: yahoo notícias